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Antibióticos: vilões ou mocinhos no combate à malária?

 

Por Isabel  de Faria Moreira*

 

 

 A malária é uma infecção causada por um parasito e transmitida através da picada da fêmea do mosquito-prego, infectado principalmente pelos protozoários do gênero Plasmodium (P. falciparum, P. malariae, P. vivax ou P. ovale), sendo o P. falciparum o principal causador da malária clínica grave e de mortes.

A malária acomete principalmente áreas pobres e desfavorecidas e de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 198 milhões de casos de malária foram reportados em 2013 com cerca de 584 mil mortes. Apesar de o índice de mortalidade pela malária ter diminuído quase 25% desde 2000, a doença ainda mata uma criança a cada minuto na África.

Umas das formas mais eficazes para o controle da doença são medidas preventivas que induzem a redução do mosquito transmissor, protegendo assim a população humana do risco de se contaminar ou transmitir a doença. Os sintomas da malária são muito parecidos com os de gripes comuns, logo o diagnóstico muitas vezes é feito de forma equivocada. Assim, pacientes diagnosticados de forma errada podem ser medicados incorretamente com vários tipos de remédios, principalmente antibióticos.

Sabendo que os microrganismos (fungos e bactérias) naturais de um organismo possuem um papel de proteção contra infecções, a pesquisadora Mathilde Gendrin do Imperial College London, testou a hipótese de que os antibióticos, presentes no sangue humano, poderiam desregular o conjunto de microrganismos associados aos mosquitos. Esse desequilíbrio aumentaria a susceptibilidade do mosquito ao Plasmodium e por consequência a transmissão da doença. Esse efeito poderia influenciar consideravelmente a carga de malária na África Subsaariana, onde ocorrem 90% dos casos mundiais de mortes. Nessa região, o uso de antibióticos é elevado, particularmente em áreas onde há a atuação de programas de eliminação de doenças transmissíveis, que exigem o uso de antibióticos.

Através do uso de uma técnica de alimentação artificial dos mosquitos, a autora conseguiu demostrar que a presença de antibiótico no sangue de pessoas infectadas representa um aumento no risco de transmissão da doença, porque o antibiótico ingerido junto com o sangue causa uma desordem no conjunto de microrganismos associados ao inseto e isso aumenta a susceptibilidade do mosquito à infecção pelo parasito. Além disso, a exposição aos antibióticos aumenta a sobrevivência e capacidade de reprodução do mosquito, aumentando a taxa de transmissão da doença.

Mathilde Gendrin sugere que a transmissão da malária pode ser aumentada em áreas de alto uso de antibióticos. Assim, regiões abrangidas por programas de administração de medicamentos em massa, contra as doenças transmissíveis, devem exigir maior controle do agente transmissor da doença, o mosquito-prego.

 

 *Isabel Cristina de Faria Moreira Possui graduação em Biotecnologia pelo Centro Universitário Estadual da Zona Oeste e mestrado em Química Biológica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é doutoranda na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Texto revisado e editado por Caio Rachid.

 

Referência: Gendrin, M. et al. Antibiotics in ingested human blood affect the mosquito microbiota and capacity to transmit malaria. Nat. Commun. 6:5921. 2015

 

TAGS: Malaria; antibióticos; microbioma.

 

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Feito por Thais S. Barbosa (ECO - UFRJ) para o CurtaMicro 2017