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O primeiro presente materno: as bactérias

 

Por Lais Feitosa Machado*

 

 

 

No momento de nosso nascimento, somos colonizados por uma grande quantidade e variedade de micro-organismos. Estes nossos pequenos inquilinos podem variar em número e espécie ao longo do tempo, no entanto, nunca nos abandonam, nos acompanhando durante toda a nossa vida.

As comunidades de micro-organismos que habitam nosso corpo são tão numerosas e diversas que podem influenciar algumas de nossas regulações fisiológicas. Por conta disso, alguns cientistas reconhecem nossa microbiota (conjunto de micro-organismos) como um órgão do corpo humano. E esse “órgão”, como qualquer outro, é essencial para a manutenção de nossa saúde e bem estar.

 O desenvolvimento e a maturação inicial de nossa microbiota são fortemente determinados pela troca de micro-organismos que realizamos com nossas mães desde bem cedo e podem ser influenciados pelo tipo de parto do qual nascemos, pela utilização de antibióticos por nossas mães antes e durante a gravidez e pelo uso de fórmulas nutritivas para nossa alimentação.

 No que diz respeito ao tipo de parto, bebês nascidos por meio de parto normal são colonizados, primariamente, pela microbiota vaginal de suas mães, enquanto bebês nascidos de parto cesáreo são colonizados pela microbiota da pele. Essas diferenças, que são bastante acentuadas, podem perdurar até a idade de 7 anos da criança e estão relacionadas ao aumento do risco de doenças intestinais, asma, diabetes tipo 1 e obesidade em bebês nascidos por parto cesariano.

Quanto aos antibióticos, seu uso pode provocar modificações na microbiota normal dos bebês quando realizado antes e durante a gravidez. Essas modificações podem ser observadas já nas primeiras fezes dos bebês, que apresentam uma diversidade bacteriana bem inferior à diversidade observada para bebês cujas mães não fizeram uso deste tipo de medicamento. Já para o uso de fórmulas nutritivas, observou-se que as modificações na microbiota intestinal dos bebês podem ocorrer inclusive quando as fórmulas são utilizadas em pequenas quantidades, como para o complemento da nutrição, o que pode reduzir os benefícios oriundos da amamentação.

A saúde da mãe ao longo da gravidez é outro fator que pode interferir na microbiota dos bebês. Bebês nascidos de mães obesas, por exemplo, apresentam elevadas concentrações de bactérias relacionadas à obesidade. E mães com diabetes ou eczemas podem transferir uma microbiota com capacidade de causar doenças para seus filhos.

No entanto, nada disso é, necessariamente, determinístico sobre o “órgão” microbiano dos bebês. Uma vez que seja submetido a situações que possam ter causado perturbações na microbiota normal dos recém-nascidos, os pais podem optar por estratégias de restauração da microbiota de seus filhos. Para bebês nascidos por partos cesáreos, por exemplo, é possível fazer a inoculação da microbiota vaginal da mãe imediatamente após o nascimento, desde que essa tenha uma colonização microbiana saudável. E para filhos de mães com problemas de saúde e que fizeram o uso de medicamentos ao longo da gravidez, a amamentação somada ao uso de probióticos pode ser bastante importante.

No entanto, para além de restaurar, prevenir continua sendo a melhor opção. Portanto, para evitar o aumento de doenças causadas pelo comprometimento do nosso “órgão” microbiano, encoraja-se, fortemente, a utilização de duas das mais comuns, porém mais importantes estratégias evolutivas dos mamíferos: o parto normal e a amamentação exclusiva!

 

Texto revisado e editado por: Caio Rachid.

 

*Laís Feitosa Machado é Bióloga, Doutora em Ciências (Microbiologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. e professora Adjunta da Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF. Trabalha na área de ecologia microbiana. Lais é editora associada do CurtaMicro

 

MUELLER, N.T.; BAKACS, E.; COMBELLICK, J.; GRIGORYAN, Z.; DOMINGUEZ-BELLO, M.G. The infant microbiome development: Mom matters. Cell Press, v. 21, p. 1-9, 2015.

 

Feito por Thais S. Barbosa (ECO - UFRJ) para o CurtaMicro 2017