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Terapia com transplante de fezes - Vai encarar?

 

Laís Feitosa Machado*

 

 

 

O transplante fecal de micro-organismos consiste na administração de uma solução contendo material fecal de uma pessoa saudável a uma pessoa doente no intuito de modificar a composição de sua microbiota (conjunto de micro-organismos) intestinal e beneficiar sua saúde. Embora, a princípio, este procedimento possa causar estranheza, a comunidade científica vem trabalhando no intuito de torná-lo cada vez mais comum no tratamento de algumas doenças.

O trato gastrointestinal humano contém a maior e mais diversa comunidade de micro-organismos de nosso corpo. Cada pessoa apresenta, pelo menos, 160 diferentes espécies microbianas, que atuam no metabolismo, no sistema imunológico, na resistência contra o câncer e ainda participam de processos endócrinos (relacionados aos hormônios) e de funções cerebrais. Embora essa microbiota possa variar de acordo com alguns fatores, como o sexo, a idade e o tipo de dieta, há um conjunto de micro-organismos na região intestinal que é constantemente encontrado em seres humanos saudáveis. Quando ocorrem grandes perturbações nesta microbiota, surgem os problemas de saúde. E é justamente no intuito de reestabelecer o equilíbrio dinâmico das comunidades microbianas intestinais que surge o transplante fecal de micro-organismos.

 Para o processo de transplante, é realizada uma seleção de um doador que não apresente histórico familiar de doenças autoimunes e metabólicas e que não apresente potenciais patógenos em seu organismo. Após cuidadosa seleção, as fezes são coletadas, misturadas em água ou em uma solução contendo sal e filtradas para remoção de qualquer partícula sólida. Após preparada, a mistura pode ser administrada à pessoa doente por meio de tubo nasogástrico (que conecta as narinas ao estômago), tubo nasojejunal (conecta as narinas ao intestino), endoscopia digestiva alta, colonoscopia ou enema de retenção.

 O primeiro uso de fezes em procedimentos terapêuticos foi descrito no século IV e ocorreu na China para o tratamento de doenças como a diarreia. No entanto, apenas em 1958, quando o transplante de fezes foi descrito como tratamento para colites pseudomembranosas (inflamações no intestino), este procedimento foi introduzido nos tratamentos da medicina convencional.

 Atualmente, o transplante fecal de micro-organismos tem sido utilizado no tratamento de infecções intestinais quando as mesmas são recorrentes e não respondem ao tratamento com antibióticos. Para algumas delas, observa-se uma taxa de 81% de cura quando realizado o transplante contra 31% quando são utilizados os medicamentos convencionais. Além disso, estudo recente mostrou que o transplante fecal de micro-organismos de um indivíduo magro para um indivíduo obeso resultou em melhora na sensibilidade à insulina e em aumento da diversidade da microbiota intestinal nos indivíduos obesos. Estes resultados chamam atenção da comunidade científica e demonstram o potencial da utilização do transplante fecal de micro-organismos para tratamentos futuros de obesidade, de síndromes metabólicas e do diabetes mellitus.

Há uma aceitação cada vez maior do uso do transplante fecal de micro-organismos para o tratamento de algumas doenças, principalmente por se tratar de um procedimento natural e de relativo baixo custo para implementação. No entanto, poucos estudos de longo tempo sobre os riscos dessa terapia foram realizados. Dependendo destes resultados, o número de transplantes fecais pode aumentar e este procedimento pode ser potencialmente utilizado para a terapia de outros problemas de saúde ainda não explorados até o momento. E você aí? Vai encarar?

 

*Editora associada do CurtaMicro, professora Adjunta da Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF. Tem experiência em Microbiologia Ambiental, Ecologia Microbiana e Educação. Arre égua! Ninguém segura essa cearense multi-dotada e sempre disposta a ajudar.

 

Referência: GUPTA, S.; ALLEN-VERCOE, E.; PETROF, E.O. Fecal microbiota transplantation: in perspective. Therapeutic Advances in Gastroenterology, v. 9, p. 229-239, 2016.

 

Feito por Thais S. Barbosa (ECO - UFRJ) para o CurtaMicro 2017