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Quando homens e bactérias não se separam

 

Por Deborah Leite*

 

 

 

Os micro-organismos ocupam os mais diversos ambientes terrestres e exercem funções essenciais para a manutenção da vida em nosso planeta. Mais do que isso, eles podem viver em estreita associação com animais e plantas, desempenhando papéis essenciais à vida destes organismos.

Dentre os benefícios trazidos por estes micróbios, podemos citar a capacidade de proteger animais e plantas contra doenças. Já foi demonstrado que animais livres de germes são menos saudáveis e extremamente sensíveis à enfermidades.

Outra contribuição importante dos micro-organismos que vivem associados a outros seres é a capacidade de desempenhar processos que o animal ou planta não pode realizar sozinho, principalmente no que diz respeito à nutrição. Como exemplo, podemos citar a disponibilização de nutrientes para as plantas, a degradação do capim paras vacas, cupins e baratas, a fotossíntese feita por microalgas em corais, moluscos e esponjas, dentre muitos outros exemplos. Todos estes são processos mediados por micro-organismos.

Carl Woese, um famoso microbiologista, mencionou que “Gostemos ou não, a microbiologia vai estar no centro dos estudos sobre evolução no futuro”. E ele estava certo! Cada vez mais, os estudos têm demonstrado a importância dessa estreita relação. Hoje, fala-se bastante no meio científico do holobionte. Mas o que vem a ser isso?

A teoria do holobionte traz uma nova forma de enxergar cada animal ou planta. Ela diz que para entender as características de cada um deles, é preciso levar em consideração as características dos micro-organismos que vivem associados a eles. Isso porque esses organismos evoluem em conjunto e não de maneira independente. Assim, a característica genética da planta ou animal age juntamente com as características genéticas dos micro-organismos associados a eles.

Essas associações são tão importantes que alguns micro-organismos são transmitidos de geração em geração, como uma herança. Estudos demonstram que os micróbios podem ser transmitidos através de uma grande variedade de métodos. No caso dos seres humanos, por exemplo, a colonização da pele e do intestino de recém-nascidos ocorre por meio do contato com os micróbios presentes na vagina da mãe, e são transmitidos no momento do parto. Inclusive, crianças nascidas de parto normal tendem a ter uma colonização microbiana diferente das crianças nascidas por cesária. Essas diferenças interferem no desenvolvimento do sistema imunológico, e crianças nascidas de parto normal tendem a ter um sistema mais eficiente.

As transmissões de micro-organismos de mães para filhos demonstram que o estabelecimento das relações entre os micro-organismos e seus hospedeiros (organismo que abriga os micro-organimos) é de extrema importância para a manutenção da vida. É como se fosse indispensável que o novo indivíduo encare o mundo já colonizado por sua microbiota amiga.

Assim, para conhecer todas as vantagens do estabelecimento das relações entre os micro-organismos e seus hospedeiros, a biologia vem buscando reformular seus paradigmas. Não é mais possível falar de um indivíduo de maneira independente. Não é possível considerar um animal ou uma planta apenas como indivíduos. Eles são holobiontes. Você também é! #SomosTodosHolobiontes

 

*Deborah Catherine de Assis Leite é mestre e doutora em Microbiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente trabalha no seu pós-doutorado, e pesquisa a microbiologia de corais, com enfoque na teoria do holobionte.

 

Texto revisado e editado por Caio Rachid

 

Referência: Rosenberg E, Zilber-Rosenberg I. Microbes drive evolution of animals and plants: the hologenome concept. mBio 7(2):e01395-15. 2016.

 

TAGS: Hologenoma, holobionte, simbiose

 

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Feito por Thais S. Barbosa (ECO - UFRJ) para o CurtaMicro 2017