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Micro-organismos que alteram a mente: o impacto dos micro-organismos do intestino no cérebro e no comportamento

 

Por Aline Rosa*

 

 

A cada dia, novas evidências ressaltam a importância da microbiota em diversas funções do nosso organismo. A microbiota é definida como o conjunto dos micro-organismos (principalmente bactérias e fungos) que habitam diferentes locais do corpo, e geralmente são benéficos. A microbiota ajuda, por exemplo, na produção de vitaminas e também no desenvolvimento das defesas do organismo. Os intestinos apresentam dez vezes mais micro-organismos que células humanas e mais de mil espécies diferentes, que influenciam a comunicação com o cérebro por diferentes formas. Assim, há evidências de que alterações na microbiota podem alterar a função cerebral e até o comportamento.

A composição da microbiota é determinada logo ao nascimento. A microbiota materna permanece até cerca de um ano, quando a criança desenvolve uma microbiota mais complexa, como a de um adulto.  A dieta é um dos fatores essenciais que influenciam a composição da microbiota intestinal; mas, infecções, doenças e uso de antibióticos, entre muitas outras coisas, também são importantes. A composição da microbiota tem papel importante na saúde, e uma alteração pode resultar em diferentes doenças, como a Síndrome do Intestino Irritável, na qual a ocorrência de diarréia e intestino preso podem estar associadas a fatores psicológicos, como stress e ansiedade.

Alguns estudos revelam que o estresse da separação precoce de filhotes de macacos e ratos de suas mães, resulta na diminuição de bactérias benéficas, chamadas Lactobacilos, nas fezes, indicando uma ligação entre a microbiota e o estresse. O estresse crônico em animais adultos também afeta a microbiota intestinal e pode ser responsável pelo rompimento da barreira intestinal, permitindo a circulação de substâncias inflamatórias. Estudos em humanos apontam que o mesmo processo pode estar associado à depressão. Estes efeitos podem ser reduzidos com o consumo de iogurtes, leites fermentados e suplementos contendo probióticos, ou seja, organismos vivos que ajudam no restabelecimento da saúde, como os Lactobacilos e Bifidobactérias, mostrando assim a importância dessas bactérias.

Outros estudos com animais “germ-free” (que não possuem microbiota) mostraram deficiências em testes simples de memória, sugerindo que a microbiota poderia influenciar a capacidade de aprendizado. Além disso, quando estes animais foram expostos à microbiota de outros, exibiram comportamento similar aos doadores, sugerindo influência no comportamento.

Investigações sobre o impacto na microbiota, por bactérias que causam doenças intestinais, revelaram que estas alteram a utilização de um aminoácido (triptofano) e a produção de substâncias inflamatórias, resultando em ansiedade. O tratamento com probióticos foi capaz de reverter a inflamação e o comportamento, revelando a importância dos probióticos e da microbiota, que competem com bactérias que causam doenças. Além disso, substâncias produzidas por bactérias probióticas podem estar diretamente associadas ao combate contra a ansiedade e a depressão.

O uso de antibióticos também vem sendo associado com perturbações na microbiota intestinal, resultando em alteração comportamental.

Desta forma, há várias evidências do papel da microbiota intestinal na comunicação intestino-cérebro. Estas vias são importantes alvos para o desenvolvimento de novos tratamentos contra a dor, obesidade, síndrome do intestino irritável, e até doenças psiquiátricas, como a ansiedade, depressão, autismo e a esclerose múltipla. Talvez, em um futuro próximo, essas doenças sejam tratadas com a utilização de bactérias ao invés do uso de fármacos.

 

* Aline Rosa é doutoranda do Departamento de Microbiologia Médica do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Texto revisado por Caio Rachid.

 

Referência: John F. Cryan e Timothy G. Dinan. Mind-altering microorganisms: the impact of the gut microbiota on brain and behaviour. Nature Reviews Neuroscience. 13:701-712. 2012.

 

Feito por Thais S. Barbosa (ECO - UFRJ) para o CurtaMicro 2017