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A questão do degelo e os vírus gigantes

 

Por Caroline Frere Martiniuc*

 

 

 

Os vírus são os menores seres conhecidos, normalmente sendo invisíveis até mesmo ao microscópio comum. Não possuem células e são, basicamente, constituídos por ácido nucleico (DNA ou RNA) envolvido por uma capsula proteica denominada capsídeo. São parasitas obrigatórios, pois, para se multiplicarem, precisam invadir e utilizar a célula de outro organismo. Esses micro-organismos são responsáveis por diversas doenças causadas em animais e plantas, dentre elas a AIDS, Zika e a Dengue.

 Mais recentemente, pesquisas descreveram os chamados “vírus gigantes”. Esse termo se aplica a vírus muito maiores que os tradicionalmente encontrados. Apesar de serem chamados de gigantes, ainda são seres microscópicos com tamanhos equivalentes a pequenas bactérias.

                        

 

Imagem demonstrando diferença de tamanho entre um vírus bacteriófago, o vírus gigante e uma bactéria.

 

Em 1992, foi encontrado, infectando uma ameba da espécie Acanthamoeba polyphaga, um micro-organismo que se assemelhava muito a uma bactéria. Apenas em 2003, cientistas definiram que esse mesmo micro-organismo, até então chamado de Bradfordcoccus, se tratava de um vírus. A partir desse ano, passou a ser chamado de Mimivirus: o primeiro vírus gigante descoberto.

Atualmente são conhecidas quatro famílias para essa nova classificação: Mimiviridae, Pithovirus, Pandoraviridae e Mollivirus. Todas estas são capazes de infectar amebas do gênero Acanthamoeba, no entanto, até onde se sabe, são inofensivas a saúde dos humanos. Destas, a mais nova família descrita foi a Mollivirus, que apesar disso, já existe há 30 mil anos, fato que foi comprovado por cientistas ao ser encontrada em solos congelados na Sibéria.

O mais incrível de toda essa história, é que os vírus gigantes apresentam as mesmas formas de infecção que os vírus convencionais, e alguns deles foram capazes de infectar amebas mesmo depois de 30 mil anos congelados.

Esse tipo de fenômeno cria um alerta sob as perspectivas das mudanças climáticas. Se, mesmo apesar de tantos anos congelado, um vírus é capaz de infectar outro organismo, será que outros vírus não podem ressurgir e trazer doenças há muito esquecidas?

 As regiões árticas, por exemplo, estão ficando mais quentes. Como consequência, os subsolos congelados são expostos. Essas mesmas regiões eram, no passado, um dos locais onde pessoas contaminadas com varíola foram enterradas.

 Tendo em vista este cenário e o comportamento observado nos vírus gigantes, há possibilidade de outros vírus, como por exemplo o da varíola, ressurgir.  Doenças do passado são particularmente preocupante, pois dada a sua erradicação, há gerações inteiras que não estão vacinadas e tampouco preparadas para sua ocorrência.

Através do exemplo observado com os vírus gigantes, percebe-se a importância de entender mais sobre os vírus, sejam estes gigantes ou não, assim como aprofundar as pesquisas nos estudos das doenças, até mesmo aquelas consideradas erradicadas.

 

Texto revisado e editado por: Caio Rachid e Thais Barbosa.

 

*Faz graduação em ciencias biológicas com enfase em microbiologia e imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ, fazendo iniciação científica no Laboratório de Ecologia Microbiana Molecular (LEMM), no Instituto de Microbiologia Professor Paulo de Góes. Atuando na área de ecologia microbiana de ambientes marinhos

 

Referência: Legendre M, Lartigue A, Bertaux L, Jeudy S, Bartoli J, Lescot M, Alempic JM, Ramus C, Bruley C, Labadie K, Shmakova L, Rivkina E, Couté Y, Abergela C, and Claverie JM. In-depth study of Mollivirus sibericum, a new 30,000-y- old giant virus infecting Acanthamoeba. PNAS, v. 8: E5327–E5335, 2015.

 

Feito por Thais S. Barbosa (ECO - UFRJ) para o CurtaMicro 2017