Tudo tem um começo

 

Por Eduardo Fonseca*

 

Você já parou para se perguntar como nasce uma floresta? Como é o inicio de algo que se torna tão complexo e magnífico? Quem ou o que começa o processo? Só para variar, mais uma vez os micro-organismos aparecem como resposta a essas indagações! Novamente o mundo da microbiologia está aí para comprovar a célebre frase de Louis Pasteur “O papel dos infinitamente pequenos na natureza é infinitamente grande”.

Muitos estudos têm comprovado que os liquens são os responsáveis por iniciar as diferentes paisagens naturais que conhecemos. A ocorrência desses micro-organismos data do período devoniano, ou seja, mais de 400 milhões de anos atrás. Por isso, os liquens são chamados de pioneiros, quem prepara o terreno, os primeiros colonizadores da Terra. Mas o que seriam os líquens? Eles não são um organismo, mas sim, a associação simbiótica entre fungos e algas, ou cianobactérias. Ou seja, são uma relação muito íntima entre dois organismos, que gera um benefício mútuo.

 

Dentro dessa relação, as algas ou cianobactérias são responsáveis por providenciar substâncias orgânicas e energia através da fotossíntese, enquanto os fungos retribuem com a retenção de umidade, abrigo e aporte de sais minerais.

Para entender a questão do pioneirismo dos líquens, vamos imaginar uma ilha vulcânica recém-formada, sem nada, apenas rocha recém-criada. Os liquens, devido ao seu tamanho reduzido e sua capacidade de fazer fotossíntese, serão os primeiros seres vivos que terão condições de se estabelecer nesse ambiente inóspito. Depois que se estabelecerem, os liquens passam a se expandir em cima dessa rocha, aumentando a massa celular e liberando como produto do seu metabolismo, uma substância chamada de ácido liquênico. Esse ácido irá agir na corrosão da superfície da rocha, que vai se dissolvendo e liberando sais minerais a serem aproveitados pelos próprios liquens. Esse processo corrosivo permite a abertura de micro-fissuras onde os liquens avançam por meio de estruturas chamadas hifas.

Quanto maior for o desenvolvimento dos liquens, mais ácido será liberado e mais rocha será corroída. Isso tudo irá se misturar com os próprios resíduos do crescimento dos líquens. Ao longo de muitos anos a rocha vai acumulando, em sua superfície, pequenas partículas misturadas à matéria orgânica, dando origem a um solo primitivo.

 Essa mistura de componentes orgânicos e inorgânicos servirá de substrato inicial para que outros seres vivos possam se estabelecer. Assim, se inicia a colonização por musgos e então por pequenas plantas e animais, até que formas maiores e mais complexas tenham suporte para sobreviver nesse ambiente. Esse é um processo clássico de sucessão ecológica, que só é viável porque no inicio de tudo, micro-organismos colonizaram e transformaram a superfície da rocha. Esse seres são realmente incríveis!

 

#OSLIQUENSVÃOPRIMEIRO

#LIQUENSDESBRAVADORES

 

*Eduardo Fonseca é Mestre em biotecnologia vegetal e doutorando em microbiologia pelo Instituto de Microbiologia Paulo de Góes - Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Texto revisado e editado por Caio Rachid. Ilustrações por Iago Diehl.

 

Referência: Jie Chen a; Hans-Peter Blume; Lothar Beyer  --  Weathering of rocks induced by lichen colonization — a review  - 2000, Elsevier Science B.V. All rights reserved. PII: S0341- 8162 99 00085-5

 

Feito por Thais S. Barbosa (ECO - UFRJ) para o CurtaMicro 2017